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Especial

23/04/2009 08:00

Trem do Pantanal evoca saudades de uma viagem sem volta

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Jacqueline Lopes


Quem perdeu essa viagem terá a chance de conhecer um pouquinho da época em que os trilhos eram o principal meio de transporte de massa, e apoiavam rodas poderosas que arrastavam a riqueza do Estado. A cada estação a balbúrdia de crianças e pais que vendiam bolo, pastel, peixe frito, chipa. E assim ia, num sacolegar sem fim batendo desigual, horas e horas até chegar a Corumbá, passando pelo Indubrasil, Palmeiras, Piraputanga, Camisão, Aquidauana, Miranda, Albuquerque, Taunay, tantas outras. Dentro do trem os garçons carregavam refrigerantes embutidos no avental, sob olhares pidões das crianças. Pelas janelas entravam o ar com cheiro de guavira do Cerrado, ou a fuligem das queimadas, sujando tudo. Mas ninguém se importava.

O apito era o aviso de chegada e o adeus de partida. Não há como resistir ao charme do trem, que por décadas passou de moderno e útil a obsoleto, oneroso, por fim deficitário, até cessar o transporte de gente e continuar só a transportar grãos e minério.  

Era, sobretudo, democrático. Transportava políticos, empresários, mascates, donas de casa, velhos e crianças e até caixas de galinha e alimentos. Mas havia nele a mesma distinção de classes que configura a sociedade. Os abastados ocupavam o vagão 'de primeira’. Pobres, trabalhadores em geral e funcionários da antiga Noroeste do Brasil, seguiam no 'de segunda'. Entretanto, todas as classes sociais tinham encontro marcado no vagão-restaurante.

A viagem interrompida em 1996 retorna dia 8 de maio deste ano, 13 anos depois. E faz suspirar de saudades quem viveu intensamente aquela época.

“Para quem trabalhava na Ferrovia tinha muita fartura. As famílias plantavam na beira da estrada. Só no Pantanal que não dava porque alagava, mas só via os bichos. Em Camisão, Piraputanga e Taunay vendia de tudo. Os índios com as frutas do mato, matavam tatu, assavam e vendiam. Peixe também”, lembra Odilon Lemos, 79, aposentado da antiga Noroeste do Brasil.

Na década de 90 com o crescimento das rodovias, a popularização do ônibus por ser mais rápido embora mais perigoso, houve uma queda no número de passageiros, um sucateamento da linha. Ao contrário dos países como Estados Unidos. Austrália e Rússia, que pela extensão territorial mantêm investimentos ferroviários, no Brasil houve a privatização, falta de manutenção do patrimônio, fim do transporte de passageiro.

“O trem de passageiros era lotado porque o povo da cidade ia tudo para o mato pescar no fim de semana. Ia para Piraputanga, Camisão. Depois, construíram o asfalto e começou a correr o ônibus, diminuiu os passageiros. Arrendaram o patrimônio e acabaram com tudo”, diz Lemos.

O que o descaso legou ao abandono e o tempo se encarregou de deteriorar, os cofres públicos tiveram que socorrer. Foram investidos R$ 739 mil do governo do Estado para revitalizar a estação Indubrasil, de onde vai sair o Trem do Pantanal no dia 8 de maio, em inauguração que poderá contar com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O auxiliar de serviços gerais João Rodrigues da Silva, 50, trabalha na obra junto com dezenas de outros homens. Ele disse ao Midiamax que quando ‘moço’ costumava viajar para Aquidauana, onde morava a mãe dele.

“Fim de ano enchia de gente na estação Mário Dutra lá perto do Friboi. Era bem seguro e o preço era barato dava para viajar nas férias. Viajar de trem era que nem estádio de futebol, pobre podia viajar e tinha lugar para rico também. Depois ficou tudo abandonado e arrebentado, dinheiro jogado fora”. João Silva trabalha na obra na estação de Indubrasil e hoje, acredita que é um sonho a retomada do Trem do Pantanal.

Reativação

A reativação de parte do trecho do Trem do Pantanal, que nos anos 1953/1996 saia de Bauru (SP) chegava até Corumbá e de lá, a ferrovia boliviana levava os passageiros a Santa Cruz de La Sierra, parecia algo que seria contado apenas pelas novas gerações, pois a história de Mato Grosso do Sul com o nascimento de pequenas cidades se deu graças a expansão da linha férrea. Na divisa com o Paraguai, em Ponta Porã, as estações e os trilhos são marcas históricas.

Agora, após 13 anos sem o trem de passageiro, Mato Grosso do Sul retoma um projeto emblemático para o turismo e lança com pompas o Trem do Pantanal no trecho Campo Grande/Miranda. A parte mais alagada da região, que fica de Miranda até Corumbá, poderá ser ativada em 2010 se a empresa responsável pela manutenção da linha férrea conseguir garantir as reformas e assim, a segurança aos passageiros.

"O 'Pantanalzão' mesmo é de  Miranda pra lá. Você vê bichos na beira da linha e a chegada em Porto Esperança quando é época da cheia é uma beleza", relembra o aposentado Lemos. Ele torce pro Trem do Pantanal ser ampliado até Corumbá.

“Viajei muito para Aquidauana. Todo mundo fala que lá pros lados de Corumbá que se vê o Pantanal de verdade, mas só de chegar em Aquidauana já era muito legal. Agora trabalhamos ‘embunitando’ a estação para o povo, o presidente conhecer”, completa o auxiliar de serviços gerais José Maria da Costa, 35, que também trabalha com outros operários na reforma da estação Indubrasil.

O antigo governo estadual tentou ativar, mas acabou barrado pela ANTT (Agência Nacional de Transporte Terrestre) chegou a frear a volta do Trem do Pantanal. A Agência só liberou no trecho onde os dormentes passaram por manutenção e demonstraram em boa qualidade.

Na época vagões estilizados tinham desenhos da onça pintada e outros animais da fauna sul-mato-grossense. Tudo foi alterado para o lançamento oficial no dia 8 de maio.

Indubrasil

Nas cores laranja, sem as características dos anos 50, a estação Indubrasil passou por reformas e ganha aspecto mais moderno. Os vagões do novo Pantanal Express (o antigo Trem do Pantanal) estão em Curitiba (PR), deverão seguir para Sorocaba (SP) e chegar à Indubrasil no dia 1º de maio.

Segundo o diretor comercial da Pantanal Express, Adonai Arruda Filho torce para que em 2010 o Trem do Pantanal possa chegar até Corumbá.

Animado com o projeto em Mato Grosso do Sul, ele acredita prepara junto com a Fundação de Turismo do Estado e Sebrae-MS toda a infra-estrutura para que o trem possa ser referencial nacional do turismo.

”Temos a Serra de Maracaju que é muito linda, rios de ponte e ainda as estações de Piraputanga e Taunay. Vamos criar projetos para abranger essa comunidades locais”, detalha.

Música

Um pouco da cultura sul-mato-grossense faz parte de todo o projeto Trem do Pantanal. Nos vagões cancioneiros deverão tocar músicas regionais e no restaurante, músicos apresentarão os trabalhos da região.

A história da Guerra do Paraguai e exibição de peões tocadores de berrantes também fazem parte do cardápio cultural.

Roteiro

Todos os sábados às 7h30 o Trem do Pantanal sairá da estação do Distrito de Indubrasil rumo à cidade de Miranda, onde a chegada prevista é R$ 18h. Na viagem, os passageiros conhecerão as estações de Piraputanga (11h30), Aquidauana (12h30) – onde almoçam e saem rumo para a cidade de Miranda às 15 horas.

São 280 passageiros por viagem. Numa velocidade de 30 quilômetros por hora, o tour será de 6 horas. O preço da viagem Campo Grande/Miranda varia entre R$ 39,00 a R$ 126. Há três tipos de viagens: econômico, turístico e nos vagões executivo.

A volta será todos os domingos às 8h30, quando sai de Miranda e chega em Aquidauana às 11h30 [deixa a cidade às 14h]; chega em Piraputanga às 15h e a chegada em Campo Grande na estação Indubrasil é prevista para às 19h15.

Preços

Vagão econômico – Não haverá serviço de bordo e o preço para quem entrar no trem em Campo Grande e descer em Aquidauana é R$ 32. Já quem seguir viagem a partir de Aquidauana à Miranda R$ 23,00. O preço da passagem no vagão econômico da Capital até Miranda é de R$ 39,00.

Vagão turístico – Com serviço de bordo, comissário, lanche e refrigerante o preço da passagem de Campo Grande até Miranda é de R$ 77 para adultos e R$ 37,40 para crianças maiores de 2 anos. O preço a ser pago para quem viajar de Aquidauana à Miranda é R$ 39 para adultos e R$ 19,80 (crianças). De Campo Grande até Aquidauana a tarifa cobrada é de R$ 61 para adultos e R$ 28,60 (crianças).

Vagão executivo – O mais caro dos serviços do Trem do Pantanal conta com serviço de bordo, comissário bilíngüe, lanche, água, refrigerante e cerveja. A viagem Campo Grande/Miranda custa R$ 126 adultos e R$ 57,00 criança; Aquidauana/Miranda R$ 51 e R$ 28,60, respectivamente adulto e criança. Pelo trecho Campo Grande e Aquidauana R$ 93 adulto e R$ 45,40 criança. (Com informações do site estacoesferroviarias.com.br)

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