Tido como empresário bem-sucedido e um dos mais ricos de Dourados, Sizuo Uemura era mais do que chefe de uma organização criminosa que comandava esquemas de fraudes em licitações públicas, sustenta o delegado Bráulio Cezar Galloni no relatório parcial da Operação Owari. Sizuo, os filhos e a mulher comandavam a partir da segunda potência econômica de Mato Grosso do Sul uma rede de pessoas influentes que funcionava como um governo paralelo, chegando a subjugar ou constranger o poder legítimo. A Operação Owari (fim, em japonês) foi desencadeada na primeira semana deste mês e prendeu 41 pessoas, entre empresários, servidores públicos e políticos.
Uemura, o “homem”, ou o “doutor”, como é conhecido pelos empregados e comparsas, dominava as ações da prefeitura da cidade com força que superava a legitimidade do mandato do prefeito Ari Artuzi, do PDT, o qual ajudou com dinheiro e favores a eleger em outubro passado, revela o relatório.
Balanço das contas eleitorais da campanha de Artuzi, registrado no TRE (Tribunal Regional Eleitoral), indica que para ser eleito com 42,38% (45.182 mil) dos votos válidos, foram gastos R$ 910 mil na vitoriosa campanha.
Contudo, de acordo com o que escreveu o delegado na página 33 do relatório de 47 folhas da Owari, a campanha de Artuzi gastou mais que o justificado à corte eleitoral. E o dinheiro não declarado teria saído do bolso de Sizuo Uemura.
Eis o histórico que pode comprometer Artuzi. No trecho da página 33 do relatório, o qual o Midiamax teve acesso, o policial escreve: “a série de conversas demonstra que os Uemura, de forma constante, e aparentemente sem estar devidamente declarado, forneciam dinheiro para a campanha de Ari Artuzi”.
Num diálogo por telefone, um dos Uemura conversa com Maria Luna que, segundo a PF, usava o celular de Juliane Artuzi, filha do prefeito eleito. Na conversa é tratado um repasse em dinheiro. “... aparentemente a primeira entrega de dinheiro foi de R$ 100 mil e, conforme palavras de Sizuo Uemura, pagamento de combustível”, é a anotação do delegado.
Note que Galloni escreveu no relatório “primeira entrega de dinheiro”, suspeita que remete a ideia de que houve outros repasses. E os R$ 100 mil que teriam sido doados por Uemura não aparece na receita da campanha de Artuzi. Oficialmente, uma das empresas dele, a Via Sul, concessionária de veículos, contribuiu com R$ 35.354,00.
Maria Luna era tesoureira da campanha de Artuzi e chegou a ser presa pela PF no dia 8 de setembro de 2008, no auge da disputa eleitoral em Dourados, carregando uma maleta com R$ 10 mil. O episódio é lembrado no relatório de Galloni, que afirma ainda ter sido interceptada uma ligação de Maria Luna com Sizuo Uemura pouco antes da prisão.
O empenho dos Uemura na campanha de Artuzi evidencia mais ainda noutro trecho do relatório que cita que Sizuo promoveu em suas empresas o que delegado chamou de “eleições simuladas”. Deu Ari Artuzi.
Na véspera da eleição, Sizuo, segundo o relatório policial, manda uma ordem aos seus empregados: que votem em Ari. E o estreitamento na ligação dos Uemura com o prefeito eleito surge ainda numa declaração captada pela escuta que partira de Ângela Camurci, empregada de Sizuo. Ela disse que um dos filhos do empresário acompanhou o resultado da contagem dos votos ao lado do prefeito eleito.
Após este relato, assim o delegado Bráulio Galloni se expressou no relatório: “ainda que os Uemura tenha procurado não se vincular oficialmente com a campanha de Ari, ficou evidenciado que era Sizuo quem estava bancando a campanha e, com a vitória de Ari iria ‘mandar’ na prefeitura’.
Também segundo o relatório, Sizuo Uemura conversa com duas “amigas próximas”, a Cátia e a Amanda, que brincam ao comentarem sobre a vitória de Ari Artuzi. Nos diálogos elas afirmam que serão as “segundas damas” do município. Ari Artuzi vestiu um terno emprestado dos Uemura para participar de um debate realizado perto da eleiçãod, segundo a investigação.
Dois lados
Mas o empenho de Uemura também agiu na campanha do adversário de Artuzi, o hoje vice-governador Murilo Zauith, do DEM.
Trecho do relatório afirma que Sizuo, a pedido do deputado estadual Zé Teixeira, do DEM também, emprestou um carro para a campanha de Murilo por dois meses.
Mas o favor tem um preço, segundo parte do relatório, note: “destacamos também conversa de Sizuo com Jorge Takimoto [que seria o ex-governador que mora em Dourados], na qual Jorge avisa Sizuo que já conversou com Murilo sobre “aquele negócio”s que Sizuo pediu, e que Murilo já deve ter conversado com André [aqui não é citado se o diálogo trata do governador André Puccinelli], o que pode sugerir um possível tráfico de influência”.
Leia daqui a pouco detalhe da escuta telefônica indicando que a organização de Sizuo Uemura era favorecida por delegados e um escrivão da Polícia Civil