A ordem da juíza Katy Braun do Prado, titular da Vara da Infância, Juventude e Idoso da Comarca de Campo Grande, que atendeu ao pedido do promotor Sérgio Harfouche, não foi respeitada. Pais levaram criança de colo para assistir à 8ª Parada da Diversidade, o maior evento que reúne gays, lésbicas, travestis, familiares e amigos nas ruas centrais de Campo Grande. O público se concentrou na Praça Ary Coelho para a passeata e a festa continua na Praça do Rádio Clube.
A Polícia Militar estima que o público deste ano foi o mesmo do ano passado, 5 mil pessoas. A organização esperava reunir 50 mil. Não há informação precisa de que a decisão judicial tenha refletido na festa. Mas, ao contrário de 2006, a maior parada que reuniu 15 mil pessoas, este ano não participaram caravanas do interior.
Paradoxos
Hoje a temperatura ficou entre 23ºC e 31ºC e a chegada da frente fria que indica a possibilidade de chuva amenizou o calor dos últimos dias.
No trânsito a motorista que esperou o público cruzar a Afonso Pena com a Rua 14 de julho, em seu carro com ar condicionado disse à reportagem antes de abrir o sinal: “muito legal mesmo a festa!”.
Os pais que enfrentaram a determinação judicial de última hora e foram com os filhos para a praça desfilaram nas ruas e disseram que a medida contraria o direito de ir e vir e é um paradoxo para os tempos atuais.
"Criança não tem malícia. Tem tanta coisa errada nesse Brasil e que passa na televisão e ninguém faz nada", disse Ligia Braga, 35, heterossexual, ela acompanhou o sobrinho Gustavo, 6, na festa. A criança corria para todos os lados com a bandeirinha colorida.
Policiais militares circularam indiferentes entre o público que se concentrava na Praça Ary Coelho, formado por pessoas de todas as idades, inclusive muitas crianças.
Sandra Ribeiro, 49 anos, disse que é heterossexual e participa da Parada. Ela é avó do Gustavo.
Avó e tia avó são categóricas ao dizerem que é preciso derrubar qualquer tipo de preconceito. Elas fizeram questão de levar o pequeno Gustavo. A participação desde pequeno ajuda a não alimentar preconceito contra os gays, ensina a avó.
A praça Ary Coelho ficou lotada e muitos adolescentes ajudaram a levar a bandeira. A multidão se concentrou sobre o asfalto que na madrugada foi pichado por grupos radicais intolerantes em relação à liberdade sexual.
Os dizeres condenavam as práticas homossexuais, considerando-as pecado. “O Pecado não te ama, Jesus te ama” e “Buscai ao Senhor Enquanto se Pode Achar”.
A organização do evento vai cobrar do Ministério Público uma ação contra os autores da pichação apócrifa, que já foram identificados.
I´ll survive
Essa é a 8ª Parada da Diversidade de Campo Grande, e o tema deste ano é Políticas Públicas: Direito Nosso e Dever do Estado. Na praça, em tendas montadas pela manhã, militantes distribuíram panfletos de combate à homofobia.
“Já basta que tem que se esconder o ano inteiro e no dia de uma manifestação pública não tem porquê se esconder da sociedade”, resume a transexual Emanuele Becker, Lucas Fernandes, 20, Miss Campo Grande 2007 e Miss Mato Grosso do Sul.
Para o público que dançou ao som de I´ll Survive, de Gloria Gaynor, um dia de comemoração e de reflexão.
Somente este ano, 10 homossexuais foram assassinados em Mato Grosso do Sul. Na festa, a mensagem do hit musical que em português significa “Eu irei sobreviver”