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Entrevista

07/02/2010 18:06

Violência entre jovens retrata preconceito e autoafirmação, diz especialista

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Jacqueline Lopes e Celso Bejarano Júnior

Recentemente Campo Grande registrou mais um exemplo da violência urbana. O assassinato de um menino de 13 anos, que frequentava os altos da Avenida Afonso Pena, na noite de domingo 1º de fevereiro exige reflexão e é o tema da entrevista dessa semana do Midiamax.

A polícia investiga o caso. Para os familiares da vítima fica o receio de que o caso seja 'engavetado' pela suspeita de envolver jovens de classe média alta, supostos envolvidos no crime.

Júlio César dos Santos Flores morreu a pancadas, e seu corpo foi encontrado no córrego Sóter um dia depois. O crime chocou os moradores do Jardim Colúmbia, onde o menino morava e trouxe à tona o problema da violência urbana cujos protagonistas vítimas ou autores têm sido jovens adolescentes.

Sobre o aspecto psicológico e o risco do assunto transformar às relações entre jovens do Centro e bairros em ‘apartheid’, o Midiamax consultou o especialista Heriel Luz.

O entrevistado é psicólogo, formado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, atuou junto à Delegacia de Atendimento à Infância e Juventude, hoje integra a equipe da ONG paulista Instituto Mensageiros, em São Paulo (SP), organização que trabalha com crianças em vulnerabilidade social. “Meu interesse e foco de pesquisa repousa sobre a condição da infância e juventude e o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil”.

O caso do menino Júlio César dos Santos é alvo de análise do especialista.

Eis a entrevista:

Midiamax - Com informações sobre o caso, o senhor acredita que pode haver um risco de piorar a relação entre jovens pobres e de classe média alta por conta disso? A divulgação da mídia pode insuflar uma rixa com conseqüência ainda pior? De que forma isso pode acontecer?

Heriel – Para uma previsão é preciso antes saber se o crime foi um evento específico, conhecendo-se suas circunstâncias, ou se está associado à série de fatos envolvendo crianças e adolescentes de Campo Grande, tanto da periferia como da região nobre da Capital. Refiro-me às manifestações de violência ocorrida no shopping Campo Grande, no período de dezembro de 2009 a janeiro deste ano. Lá, havia claramente um antagonismo entre jovens da classe média de Campo Grande e periferia.

Contudo, é preciso assinalar que a juventude, por influência da compulsão ao consumo e consequente necessidade de pertencimento que a “marca” imprime e oferta faz com que seja difícil a distinção entre pobres e ricos. Isso porque, os avanços da pirataria tornaram difícil verificar a autenticidade da marca da roupa, do tênis ou acessório, símbolos pelos quais os adolescentes se vêem e se reconhecem.

Assim, a massa de jovens torna-se mais ou menos homogênea, sobretudo em lugares e eventos sociais. Apesar da vestimenta que os faz pertencentes, há diversos fatores, advindos do poder de compra ou não, que os diferencia e estes são ressaltados pelos grupos ou “tribos”.

Quanto à violência deflagrada ao adolescente de 13 anos, cabe à mídia informar a população e à polícia, investigar os fatos. Todavia, há que se discutir o problema em várias instâncias, porque não é difícil, tomando como base a série de ocorridos dos últimos dois meses, envolvendo adolescentes, esperar que o problema se agrave.

Acredito, porém, que ao atribuir ao ocorrido uma dimensão grupal, como um fenômeno de reação social, pode-se sim insuflar esse antagonismo, ainda que este possa não existir no caso em questão. É muito delicado o papel de mídia, pelo poder a ela atribuído.

Midiamax - A família da vítima acredita que o filho foi morto pela condição social dele. Como o preconceito pode mobilizar a violência?

Heriel – O que a família acredita, nem sempre condiz com a realidade, mas sim com um sentimento anterior derivado de suas vivências, expectativas, emoções, etc. Quanto ao preconceito, este é um sentimento diário e cotidiano presente em quaisquer sociedades em todas as épocas. Seja ele econômico, de raça, de cor, de credo, a história humana está recheada dele, com contornos terríveis.

É possível citar, desde os Campos de Concentração de Auschwitz, passando pela rivalidade entre judeus e mulçumanos, pela questão do homoerotismo, até a condição do negro, do índio e do pobre. Como derivativo da necessidade de proteção, é um fenômeno extremamente complexo, dinâmico e extenso, mas como disse acima, cotidiano.

Por mais razoável e desprovida de julgamentos que seja uma pessoa, ela terá seus preconceitos. Todavia, dificilmente aceitamos tal fato e nos causa espanto quando este é exposto, como no triste exemplo de Boris Casoy [ironizou e criticou os garis, que deram mensagem de feliz ano novo, chamando-os de ‘parte da última escala do trabalho’].

Por ser um sentimento gregário e primitivo relacionado à proteção de si e do grupo, quando emerge no grupo tende a ser extremamente violento, mas nem sempre o é individualmente, ao contrário, pode até ser aceito de maneira jocosa, como ocorre com as piadas e chistes.

Redirecionando a questão para os jovens. Neste, a violência e o preconceito andam de mãos dadas. Uma produz e retroalimenta a outra. Isso porque os atos violentos funcionam como marcas de afirmação do grupo e tentativa de destruição do outro, numa tentativa de fortalecer-se pelo aniquilamento do outro. Por essa razão esse ato, tomado como marca, é geralmente acompanhado de algum ritual, ainda que burocrático como o foi no nazismo. Se analisarmos minuciosamente ações de violência, perceberemos passo-a-passo o ritual efetuado. E os rituais têm esse caráter, o de assinalar e registrar a ocorrência de algo, com o objetivo de fortalecer o grupo.

Midiamax - Diante disso surge mais uma informação, a de que o menino morto e os colegas dele tenham sido apontados como garotos que furtavam nos Altos da Afonso Pena. Isso teria mobilizado uma ação de violência por parte dos donos de traillers. Por que é tão forte na sociedade brasileira o desejo da punição 'com a morte' a quem se envolve com a marginalidade?

Heriel – Essa questão está para além do campo da psicologia. Mas jamais afirmaria com tranqüilidade que a sociedade brasileira carrega esse desejo de punição letal. Há tanto exemplos que afirmam como que negam essa concepção. No início da década de 60, por exemplo, um bandido conhecido como “Mineirinho” assolava o Rio de Janeiro. Depois de diversas fugas ele é morto com 13 tiros. Sobre esse fato não só a mídia, mas a população da época e alguns escritores manifestaram-se contrários à atitude da polícia. Sobre isso Clarice Lispector, em 1962 escreveu: “(...) Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. (...) respondeu fria: 'O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no Céu.' Respondi-lhe que 'mais do que muita gente que não matou'.” Tanto o sentimento de Clarice quanto o de sua empregada discordam da frase contida na pergunta.

Então o que marcaria a complacência ou a revolta frente à “punição com a morte”? Seria, pois a identificação ou a percepção do outro como um semelhante, como um igual. Evidentemente que a lei prevê isso, tomando todos como iguais, todavia falo de Psicologia e não de Direito.

É muito diferente saber que há uma lei que determina isso e ter esse sentimento advindo da experiência. Infelizmente os “abismos sociais” dificultam essa identificação. Agora, usar a violência arbitrária como instrumento de coação para manutenção do comércio local, é outro caso.

Midiamax - Como as famílias das vítimas e dos suspeitos devem agir daqui para frente para tentar superar o problema? Vale lembrar que os suspeitos até a edição dessa entrevista não foram encontrados.

Heriel – Evidentemente que será muito mais difícil para a família que perdeu o garoto conviver com o fato porque nesse caso não há possibilidade de se reparar o dano. É fundamental que as famílias compreendam toda a problemática para que lidem melhor com ela e afim de que não se repita, contrariando o dito que diz: “Violência gera mais violência”.

Midiamax - O senhor trabalhou algum tempo com jovens infratores em Campo Grande, do ponto de vista psicológico, o que marca o comportamento deles?

Heriel – Não há um marco para o comportamento porque são situações várias e atos infracionais diversos. Mesmo um único caso, por sua riqueza, impossibilitaria a elucidação desse “marco”.

Midiamax - Há diferença entre a delinquência dos garotos ricos e dos garotos pobres? O Estado é responsável por essa situação e a família?

Heriel – A lei e as normas se aplicam a todos, ricos e pobres. O que talvez varie sejam as atitudes frente aos atos infracionais. Enquanto algumas famílias desejam esconder o ato, outras atribuem ao Estado à responsabilidade em vigiá-los e puni-los.

A responsabilidade social é comunitária, não só do Estado, mas também da família, da escola e de iniciativas não governamentais.

Midiamax - Como deve ser visto um adolescente de classe média envolvido em episódios violentos: ele é mau por questão de caráter ou acaba gostando da violência simplesmente por influência dos colegas?

Heriel – Há tempos a psicologia se apropriou de outros conceitos, como o de identidade, por exemplo, para não falar de caráter, que soa como algo imutável e que já vem com a pessoa, quase que por herança genética.

É sabido, porém, que experiências sociais e pessoais criam a subjetividade e a identidade do sujeito. Afirmar que o sujeito é imutável implica em sepultar a Psicologia. A pessoa modifica-se, bem como suas idéias e valores, continuamente.

Comportar-se dessa ou daquela maneira implica numa tomada de decisão que não nasce no momento e tão pouco se limita a ele, embora os defensores da “Teoria dos Jogos” tenham outra visão. Toda a vivência do sujeito será determinante e nessa dinâmica participam sim elementos do ambiente como pessoas (no caso colega), vivências anteriores, anseios futuros e assim por diante.

Midiamax - Os pais têm culpa pelo comportamento dos filhos?

Heriel – Sim e não. Sim, porque a criança e o adolescente são responsabilidade de toda a sociedade e não, pela mesma questão. Claro que o Estado dá a tutela a um representante legal da criança ou adolescente, mas criança alguma fica enclausurada 24 horas por dia para na adolescência escapar e sair nas ruas cometendo atos infracionais. Sendo assim, diversas pessoas e situações participaram da educação dessa criança e incluo aqui também a mídia, que cumpre o papel de educador social de maneira poderosa em nossos dias.

Midiamax - Um adolescente encrenqueiro, que volta e meio se mete em brigas, tem como mudar o comportamento, no caso, se tornar um garoto pacífico, mais amável?

Heriel – Evidentemente que sim, desde que se conheça e se haja sobre as razões que o impulsionam ao ato. Não quero dizer que seja tarefa fácil, mas que é possível sim. Se suas experiências o tornaram hostil, modificando seu comportamento, o contrário também poderá ocorrer.

Midiamax - A violência entre os jovens tem a ver com o consumo do álcool ou droga?

Heriel – Violência entre jovens é uma questão bastante abrangente. Depende de que violência fala-se aqui. Quanto às drogas e ao álcool é de conhecimento público que estes interferem e influenciam o comportamento. A questão da droga possui o agravante do tráfico, que em seu eixo assenta-se a violência.

Midiamax - Na pior das hipóteses, de a polícia não resolver esse caso, mesmo ocorrido diante de dezena de pessoas (testemunhas), qual o risco dele desencadear um efeito cascata de violência nos Altos da Avenida Afonso Pena?

Heriel – Se o caso tiver uma relação com o antagonismo entre grupos, poderá sim, do contrário pode ser bem pouco provável. Deve-se, porém, não alimentar a sensação de impunidade, porque esta carrega a sensação da insegurança. Não obstante, frente ao exposto, possivelmente irá aumentar o policiamento no local, evitando a propagação dessa violência. Todavia há outros caminhos além da repressão.

Midiamax - A mídia tem culpa pelo fato de não dar espaço para os jovens da periferia em suas reportagens positivas? A Prefeitura e o Estado têm também culpa por não promoverem ações de esporte e lazer que integre as classes sociais? Qual o efeito positivo na vida dos jovens de uma cidade mais democrática?

Heriel – Não “satanizo” a mídia, porque ela exerce um papel específico, numa sociedade específica. Ela mostra a que veio. Promover e incentivar o esporte, a cultura e o lazer são o outro caminho, diverso da repressão de se conter a violência entre jovens. Tanto porque cria condições outras de vida e manutenção, como um novo olhar para o mundo. Porém não tomo esse investimento como a saída mágica para o problema. Até porque violência não é sinal de falta de cultura, ainda mais quando deflagrada por grupos. Então, não se trata de ocupar o jovem, sem planejamento.

Há ainda que se ter cuidado para não prover eventos culturais que favoreçam a separação de grupos, ressaltando esse antagonismo, razão porque os investimentos na área social devem abranger todas as classes. Os olhares à infância e juventude devem ser atuais e em conformidade com os Direitos Fundamentais. Assim, o jovem deve ser enxergado como um sujeito atuante e não como o adulto de amanhã.

Midiamax - Como os professores e as polícias devem ser preparados para trabalhar com a juventude?

Heriel – Tratando-o como sujeito de direitos e deveres, igual a todos os demais cidadãos. Respeitando-o, mas exigindo-lhe respeito; protegendo-o, mas cobrando que se protege e aos demais; sem privilégios ou privações, exceto àquelas prescritas na lei. Esse preparo deve ser feito nas cadeiras da universidade e academias, bem como nas escolas, com as crianças e adolescentes.

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Comentários (3)

10/02/2010 15:43
Kenneth Coelho de Sá
kkcorrea@hotmail.com
Esse cara ai é um hobbit

08/02/2010 22:01
Ricardo
ricardo.homrich@yahoo.com.br
O pior é esse sigilo da polícia nas investigaçoes. Estranho ou seria para facilitar para alguém?

08/02/2010 12:49
Eduardo da Rocha
eduardodarocha@terra.com.br
Bela entrevista, principalmente ao afirmar que não se trata de ocupar o jovem, pelo simples fato de o fazer. Já que, diferentemente do que o repórter do Midiamax pensa, a prefeitura, através de várias políticas públicas, já presta vários tipos de atividades para que o jovem não fique na rua.
Acredito que é fundamental começar a culpar o jovem pelos seus atos, e não só os pais, sociedade, estado e "falta de oportunidades".

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